Jesus Histórico e o Cristo da Fé: Uma Reflexão a partir de Faustino Teixeira

 Jesus histórico e o Cristo da fé não são a mesma pessoa”

Luiz Felipe Pondé  - Folha de São Paulo 30/03/2026

Faustino Teixeira - Jesus e a Salvação - https://ihu.unisinos.br/ - 31 Março 2026


O teólogo Faustino Teixeira comenta a apresenta o livro do teólogo italiano, Vito Mancuso, “sobre Jesus e o Cristo”


Trata-se do novo livro do teólogo italiano, Vito Mancuso: Jesus e Cristo, publicado em Milão pela editora Garzanti, em 2025. Trata-se de uma volumosa obra, de quase 800 páginas, que busca resgatar o significado mais profundo da espiritualidade jesuânica. Como indicou o autor, o objetivo de seu livro é favorecer de forma honesta duas operações fundamentais que se colocam hoje para a reflexão teológica.


Em primeiro lugar, buscar reconstruir o mais objetivamente possível o processo histórico que desvela a jesuologia, distintinguindo aquilo que diz respeito a Jesus daquilo que veio na sequência com o caminho eclesial aberto por Pedro e Paulo.


Em segundo lugar, aprofundar a dinâmica de abertura para a universalidade proposta por Paulo em suas reflexões mais animadas pela dimensão agápica, visando sobretudo captar a nervura essencial do cristianismo, enraizada na profecia do reino de Deus [1].


Confesso que a leitura destes dois textos (integrados) foi pra mim a maior experiência espiritual desta Paschoal de 2026. Uma vibração muito parecida com a que vivenciei quando pela primeira vez, neste mesmo portal (ihu unisinos), tive o primeiro contato com um texto sobre a mística Simone Will.


A reflexão de Faustino Teixeira tem como base a VI Parte do livro de Mancuso sobre Jesus e o Cristo, onde aborda a questão do Cristianismo[4]. É o momento do livro onde o teólogo italiano busca tratar das mudanças provocadas pelo cristianismo nascente na visão de Jesus, agora transformado no Cristo da fé, por obra de Pedro e Paulo.


Segundo Faustino, a visão professada por Vito Mancuso, com base em estudiosos da tradição hebraica, como Geza Vermes, John Meier e David Flusser, Jesus foi um profeta escatológico- apocalíptico em cujo núcleo de sua mensagem estava a vinda iminente do Reino de Deus. Estava longe de sua intenção a fundação de uma instituição destinada a perdurar nos séculos[5]. Como indicou Geza Vermes, o Jesus que emerge dos evangelhos sinóticos é o de um hebreu que segue com fidelidade a religião de sua tradição. O nazareno não era senão “um pregador galileu itinerante, curandeiro e exorcista, admirado e seguido por muitos”[6]. Não é uma figura sobrenatural ou etérea, mas “alguém firmemente plantado em nosso universo de homens”[7]. Sua deificação formal veio firmada no Concílio de Nicéia, em 325 DEC[8].


Todos estamos hoje familiarizados com a ideia de que o núcleo da mensagem de Jesus é o Reino de Deus, e que ele entendia o reino como uma ação historicamente concreta, em profunda sintonia com a tradição profética (GC, 166). Trata-se de uma visão consagrada na perspectiva teológica contemporânea, e também retomada na teologia da libertação.


Com Pedro e Paulo, firma-se o cristianismo, agora acentuando a presença redentora de Cristo. Nas epístolas de Pedro, como nas cartas de Paulo, não se fala mais em Jesus, mas no Cristo. E a visão que vem agora professada é a da salvação humana viabilizada pela redenção obtida por Cristo ao morrer na cruz (GC, 448). É o que podemos igualmente observar na Primeira Carta aos Coríntios: “Cristo morreu por nossos pecados” (1 Cor 15,3). A cruz firma-se agora como símbolo fundamental, como expressão da vitória definitiva sobre a morte. O traço da vitória definitiva sobre a morte não é dado pela ressurreição, mas pela cruz que vence o pecado (GC, 450).


Na ética do jesuanismo, o passo da salvação estava firmado no exercício do bem. A expressão mais viva dessa ideia podemos encontrar na clássica passagem do evangelho de Mateus, no capítulo 25, que trata do grande julgamento. O critério essencial para a dinâmica da salvação encontra-se no exercício agápico: “Tive fome e me destes de comer. Tive sede e me destes de beber. Era forasteiro e me recolhestes. Estive nu e me vestistes, doente e me visitastes, preso e viestes ver-me” (Mt 25, 35-36). Isso foi muito bem captado pelo papa Francisco, numa singular entrevista concedida por ele ao amigo Eugenio Scalfari, em julho de 2013. Ele sublinhou que o único caminho indicado para o acesso à salvação e as bem-aventuranças se dá mediante o ágape[9].


Na continuidade da apresentação da obra de  Mancuso, Faustino Teixeira destaca que Retomando a lógica que marcou o cristianismo primitivo, entendemos que com os escritos de Pedro e Paulo o Reino de Deus perde a sua centralidade, e ocorre também uma progressiva desjejuanização (GC, 474). Para Paulo, por exemplo, o que deveras conta é o Cristo da fé: “Nós, porém, anunciamos Cristo crucificado” (1 Cor 1,23). E o Cristo de Paulo tem, na verdade, pouco a ver com o Jesus histórico, mas com um ser pré-existente, que também vem indicado por João no prólogo do seu evangelho (GC, 479)[11].


Firmou-se também no cristianismo a ideia de que a razão mesma da vinda de Cristo ao mundo foi no sentido da redenção do pecado. É o que vemos em Tomás de Aquino, ou no texto da liturgia pascal, sobre a “Felix Culpa”, ou seja, a feliz culpa que favoreceu o merecimento de um grande redentor (GC, 534). Nesse sentido, poderíamos dizer que sem a presença da culpa não haveria necessidade de um redentor. Em linha distinta de reflexão temos a presença singular da teologia de Duns Scoto, desbravando outro rumo, mais bonito, para o significado da presença de Jesus Cristo entre os humanos. Para ele, o dado da encarnação não poderia ser movido por um finalidade específica, mas foi algo gratuito e livre. A grande obra de Deus, diz o mestre franciscano, não pode ser reduzida a um determinado propósito (GC, 536-537).


Faustino relata que há uma bela passagem de Isaque de Nínive, monge do século VII, onde ele aborda a razão para a vinda de Cristo ao mundo. A seu ver, haveria uma única causa para a vinda de Cristo no tempo: o “anúncio do grande amor de Deus”. Em verdade, a morte de Jesus não ocorreu em função de uma razão específica, de remissão dos pecados, mas por algo diverso: um canal de abertura para a percepção do esplêndido amor de Deus por toda a sua criação (GC, 533).


Para concluir, Faustino  retorna ao artigo de Luiz Felipe Pondé, na Folha de São Paulo (30/03/2026) sobre Jesus e Cristo. Ele conclui o seu artigo, sintonizando-se com a visão de Joseph Ratzinger presente em seu livro sobre Jesus de Nazaré. Para Pondé, com base em Ratzinger, o Jesus sem o Cristo não teria a importância que alcançou em nosso tempo. Sua mensagem não teria o alcance encontrada hoje, mas seria somente uma “mera heresia judaica, condenada a desaparecer por conta da morte de seu profeta”. Não há como prever o que poderia ocorrer, mas acho igualmente difícil concluir que a sua presença no tempo não traria um significado preciso e profundo para a dinâmica da humanidade. Eu penso que aquilo que mais encantou a humanidade, e continua reverberando no tempo, não é o Jesus metaficizado, “consubstancial ao Pai”, mas o Jesus que viveu entre nós, que habitou nossa aldeia, que atuou amorosamente e profeticamente, testemunhado com radicalidade o amor do Pai. Foi esse Jesus histórico que deixou para nós uma memória que nos encanta e provoca. Como diz belamente José Antonio Pagola, que escreveu um dos mais belos livros sobre o Jesus histórico, “é difícil aproximar-se dele e não se sentir atraído por sua pessoa. Jesus traz um horizonte diferente para a vida, uma dimensão mais profunda, uma verdade mais essencial. Sua vida converte-se num chamado a viver a existência a partir de sua raiz última, que é um Deus que só quer para seus filhos e filhas uma vida mais digna e feliz”[12].


Até aqui foi o texto Jesus e a Salvação. Artigo de Faustino Teixeira - https://ihu.unisinos.br/ - 31 Março 2026

Daqui para frente [2] Uma espiritualidade jesuânica em sintonia com os desafios do tempo. Artigo de Faustino Teixeira (acesso em 30/03/2026). Outro artigo de Faustino Teixeira:


Faustino Teixeira volta ao Mancuso, o seu anseio essencial vai na linha de uma fé originária, centrada no Jesus profeta escatológico-apocalíptico e em seu projeto de reino de Deus. O caminho por ele proposto vai na direção de um serviço à fé vincada no tempo e não na fé eclesiástica (43), que teve sua primeira instauração com Pedro, sendo depois desenvolvida por Paulo e toda a tradição eclesial posterior.


Segundo Faustino o autor Vito Mancuso preocupa-se ainda com a crise vivida no tempo atual pelo cristianismo. Como ele sublinha, a maior parte dos ocidentais leva a sua vida de forma “serenamente não-cristã” (18). O que se observa por toda parte é o distanciamento de muitos com respeito às imposições doutrinais. São cada vez mais residuais aqueles que ainda frequentam os ritos tradicionais ou que se dedicam à leitura dos livros sagrados. Estão, na verdade, distanciados dos dogmas professados, e as pregações em curso revelam-se estranhas e obtusas para eles.


Mancuso lamenta o divórcio existente hoje entre a sociedade e a religião. Daí sua motivação em buscar nas fontes da tradição jesuânica os valores fundamentais que foram se diluindo no processo iniciado em Jerusalém e culminado em Nicéia e Constantinopla (20).


Faustino em sua reflexão, esclarece que Mancuso busca distinguir claramente Jesus do Cristo. Jesus é história, enquanto Cristo é ideia (23). Conforme o teólogo, “Jesus é um evento histórico e como tal situado no espaço e no tempo; Cristo, por sua vez, é uma ideia sob forma de mito e como tal situada fora do espaço e do tempo” (47). Dentre os traços que revelam o Jesus histórico, está a sua fidelidade à religião dos hebreus. Jesus nasceu hebreu, assim como viveu como hebreu e morreu como hebreu. Jesus “quis permanecer sempre fiel à sua religião, foi hebreu não só etnicamente, mas também religiosamente” (104 e 106). Sem desconhecer essa profunda ligação com o hebraísmo, há também em Jesus – e isso precisa ser assinalado - passos inovadores com respeito à tradição hebraica (294-295). Segundo Mancuso, a espiritualidade de Jesus está intimamente ligada ao Deus da Bíblia hebraica, mas alguns de seus ditos e gestos essenciais revelam-se inovadores (294-295).


Jesus jamais fundou uma instituição, estando radicalmente voltado para o projeto da vinda iminente do reino de Deus. Jesus nasceu do corpo de sua mãe, Maria, e antes de nascer não era. Ele nasceu de um pai terreno e tinha quatro irmãos e um número indefinido de irmãs. Era discípulo de João Batista. Toda a sua espiritualidade vinha marcada pela dinâmica da vigilância. Ele jamais se considerava alguém igual a Deus (71-77). Cristo, por sua vez, era uma ideia. Diferentemente de Jesus, ele não nasceu, pois já existia desde sempre. Cristo, que nasce em Belém e não em Nazaré (como Jesus), firma-se como o Filho de Deus, o Deus verdadeiro, consubstancial ao Pai (72).


Mancuso lembra, nenhum de nós teve acesso a Jesus. O que encontramos, na verdade, foi o Cristo: “De Jesus são poucos os que falam e cultivam sua espiritualidade; de Cristo, a cada dia se proclama sua natureza divina, afirmando que é ´da mesma substância do Pai`e se celebra o memorial de sua morte e ressurreição” (68). O acesso ao conhecimento de Jesus se dá mediante os evangelhos, mas tais evangelhos estão já permeados pelo pensamento teológico de Paulo, que deu continuidade à mensagem de Pedro (35-36). Já o acesso ao Cristo é favorecido por muitas outras fontes: os vinte e sete livros do Segundo Testamento, as obras dos padres apostólicos e dos padres da igreja, bem como dos primeiros concílios ecumênicos e demais documentos do magistério eclesiástico (35)


Enquanto Jesus proclamava o iminente advento do reino, Cristo desde o início proclamou “o advento e perfeito cumprimento do desígnio divino no mundo” (82). Ele, Cristo, desde sempre estava seguro de sua plena visão da essência de Deus (111), enquanto Jesus estava em busca, colocando-se sempre em perspectiva de escuta do Pai (114). Jesus não se considera nem divino nem santo, mas um profeta a caminho (114). Segundo Mancuso, o que ocorreu historicamente foi um progressivo esquecimento de Jesus em proveito do Cristo. Jesus e o reino de Deus passaram ao esquecimento, sendo substituídos por Cristo e pela igreja (138). A revolução jesuânica cedeu assim à conservação do Cristo e de sua ideia.


Faustino Teixeira, relata que  na proposta de Mancuso, o caminho não se firma na separação desses dois personagens, Jesus e Cristo, mas na busca de uma nova integração, que saiba restituir a operatividade crística, tão essencial. Seu indicativo não está na defesa da substância Cristo, mas em sua operatividade: “Mais que de Cristo, ocorre falar de operatividade crística, expressão certamente pouco elegante, mas que tem a vantagem de possibilitar a compreensão do que verdadeiramente está em jogo nesse conceito” (62). Em linha de profunda sintonia com o pensamento de Teilhard, Tillich e Panikkar, Mancuso reitera que essa ação crística não é propriedade exclusiva de Jesus, mas está igualmente presente em outras singulares personagens históricas, como Sócrates, Buda, Confúcio, Lao-Tsé e tantos outros contemporâneos, como Simone Weil, Etty Hillesum, Gandhi, Thich Nhat Hanh e outros (. 55 e 63).


O caminho jesuânico


Com base em reconhecidos estudiosos e exegetas, Mancuso afirma que o centro nevrálgico da mensagem de Jesus é a vinda iminente do reino de Deus. Assim como João Batista, Jesus era um profeta escatológico-apocalíptico (29, 51, 224, 725). Toda a dinâmica de seu anúncio tem uma referência fundamental aos grandes profetas, e em particular Isaías (113). Para Jesus, o reino não se identificava nem como uma realidade só interior ou então a-histórica. Ao contrário, ele entendia o reino como uma “ação historicamente concreta” (153). Sua auto-consciência era de natureza profética, e o que buscava desde sempre era o reino de Deus e sua justiça, bem na linha de Mt 6,33 (298).


O Deus de Jesus é sempre Iahweh, o Deus da religião hebraica. Ele vem sempre reconhecido por Jesus como o Pai ou Meu Pai. O Abbà de Jesus, presente no evangelho de Marcos, expressa familiaridade, mas não tem conotação infantil, como sublinhou Mancuso com base nos estudos de Geza Vermes e Giuseppe Barbaglio (276-277). Trata-se do Deus de Abraão, Isaac e Jacó; do Deus de Moisés, ou do Deus que vem suplicado nos salmos e proclamado pelos profetas. Toda a experiência espiritual de Jesus provém fundamentalmente do Deus da Bíblia hebraica (294).


Há no Jesus histórico um traço pelagiano, como indicou Mancuso, em que a noção de salvação vem associada à prática do bem. Diferentemente de Paulo, Agostinho e Lutero, o Jesus presente no Segundo Testamento era alguém movido pela prática do ágape, que acreditava profundamente na capacidade da natureza humana em fazer o bem (458, 561, 617).


Como todo personagem humano, Jesus também veio marcado por traços de sombras. Jesus se enganou com respeito à vinda do reino (173), e viveu reflexos de ambiguidade em sua atuação pública, como podemos vislumbrar em passagens bíblicas bem precisas: seu persistente refuto em curar a filha de uma mulher pagã (Mc 7,24-30); a enigmática parábola do administrador infiel (Lc 16,1-9); o seu ensinamento sobre o inferno como lugar de punição eterna (Lc 15); a parábola do banquete nupcial (Mt 22, 1-13); e o episódio da maldição da figueira (Mc, 11-12-14) (320-322). Inspirando-se em clássico disco do Pink Floyd, de 1973, Mancuso sublinha que também em Jesus existia um “The Dark Side” (320).


O teólogo italiano chama a atenção para um traço bem humano e sombrio de Jesus, que é a ira, e que, de certa forma, reproduz um traço do Deus de Israel que professava, também marcado por peculiaridades positivas e negativas (326). Temos que reconhecer, como lembra Mancuso, que na tradição hebraica há a presença de traços bem negativos, que causaram profunda resistência em místicos e místicas de nosso tempo, como Simone Weil [9]. 


Um dos traços sombrios no Primeiro Testamento está relacionado à ideia de eleição, que Mancuso preferiu nomear como israelismo. Trata-se da introdução de passos exclusivistas, já desde a sua origem, que acabam por provocar “uma divisão inconciliável entre os povos da humanidade”, entendendo Israel como o povo eleito, preferido e privilegiado por Deus (578). Esta ideologia do israelismo, que se mostra hoje vigente nos conflitos com os palestinos em Gaza, revela um traço de ódio aos diferentes que é aterrador (578-579 e 268).


Em seu precioso trabalho, Mancuso nos adverte sobre a importância de uma visão crítica sobre esse lado sombrio presente em textos do Primeiro Testamento, como por exemplo no episódio da matança do povo de Madian, descrita no capítulo 31 do livro dos Números, um dos cinco livros do Pentateuco. Ali se fala claramente de herem, ou seja da ordem dada por Deus a Moisés de exterminar totalmente aquele povo, como uma vingança dos filhos de Israel (Nm 31,7). Como mostra Mancuso, “outros exemplos bíblicos não faltam”, indicando caminhos peculiares de prática genocida (426). A direita de Israel sabe muito bem o que significa esta ideologia macabra do herem, e recorre a ela em sua prática necrófila (427).


O que favorece perceber com clareza essa presença de luz e sombra nas escrituras sagradas, é a distinção entre a Bíblia e a Palavra de Deus. Em sua obra, Mancuso desenvolve com pertinência essa questão. Como ele pontua, a Bíblia não é a Palavra de Deus, mas contém a Palavra de Deus. A Palavra de Deus autêntica é sobretudo “uma energia que infunde calor e harmonia relacional”, numa dinâmica de criatividade que suscita vida (34 e 227). As palavras humanas presentes na Bíblia revelam-se inspiradas pelo Espírito na medida em que irradiam vida, promovendo, servindo e protegendo a vida (34). Compete ao trabalho teológico operar com clareza essa distinção.


O mais antigo texto do Segundo Testamento é a Primeira Carta aos Tessalonicenses, de autoria paulina, datada de meados dos anos 50. Os evangelhos vieram depois, sendo o primeiro o de Marcos, que ocorre por volta dos anos 70. Todos os evangelhos vieram à luz num cenário já marcado pelo influxo paulino. Eles foram escritos “à luz da teologia de Paulo” (524). O clima redacional já vem pontuado pela presença da ideia de Cristo. O Jesus vem agora transformado em Cristo, ou Jesus Cristo, e isto por obra de Pedro e Paulo (51). Há ainda que lembrar que os evangelhos não constituem obra historiográfica, mas são definidos por perspectiva religiosa (27). Cada evangelho guarda uma peculiaridade: o de Marcos é fundacional; o de Mateus é institucional, e o de Lucas é profético e provocador (50). O evangelho de João, composto posteriormente, rompe ainda mais com a perspectiva jesuânica, abraçando o traço crístico, a ponto de entender Jesus Cristo como o cordeiro de Deus (125). Para João, segundo Mancuso, o traço decisivo relaciona-se mais com a confissão de fé, ficando em segundo plano “o bem praticado com as obras” (119). O Jesus anunciador e mensageiro do reino vem assim transformado no Cristo que anuncia a si mesmo. O Cristo do quarto evangelho é alguém que atribui a si “as mais solenes palavras da auto-apresentação de Deus na Bíblia hebraica: Eu sou”. Trata-se da passagem presente no livro do Êxodo.


Com o Cristo instituído por Pedro, o cristianismo ganha uma perspectiva nova, onde o traço soteriológico vem fortemente acentuado. Firma-se a ideia do valor salvífico da morte na cruz, bem como o dado sacrificial, do Cristo que se oferece como sacrifício para a salvação de todos (37, 333, 341, 374). A cruz ganha um significado central, substituindo outros símbolos que estavam presentes nos primórdios do cristianismo, no tempo das catacumbas, como a pomba, o cordeiro, a nave e o farol (80). É nesse momento que ocorre o passo fundacional da igreja, com a afirmação da cruz redentora (333).


Assim como Pedro, Paulo fala sempre do Cristo. Não há mais menção ao Jesus Nazareno, nem ao reino por ele proclamado (41 e 474). Na nova virada teológica, firma-se uma nova soteriologia, totalmente distinta da hebraica (490). O mais importante agora é o dado da morte e ressurreição do Cristo (447), que vem entendido como um ser pré-existente (479).


Nos rastros de João, Pedro e Paulo, o cristianismo firma-se com segurança, promovendo a divinização de Jesus, com culminação nos concílios cristológicos de Niceia e Constantinopla (115). Com o concílio de Niceia emerge o termo grego homooúsios, que equipara Jesus a Deus: os dois são da mesma substância (603). O que passa agora a ser fundamental é a profissão da salvação como redenção (446). Firma-se também o amartiocentrismo cristão, que faz depender a dinâmica salvífica da morte redentora de Jesus Cristo (566,537-538). É um dado que estará muito presente no concílio de Nicéia: do Jesus Cristo que morre para redimir o pecado humano (531).


Segundo Mancuso, o nascimento do cristianismo se dá no bojo de um processo marcado por três fases, que envolvem Jesus, Pedro e Paulo. Jesus fornece o material originário do edifício cristão, Pedro alça a Pedra fundacional maciça, e Paulo constrói o edifício (632).

O que Mancuso propõe em seu livro é uma retomada da espiritualidade de Jesus, e uma renovada ortopráxis (331). Como mostra o autor, o tempo atual suscita uma dinâmica nova, que implica um retorno à dinâmica jesuânica, impulsionada seja pelo hebraísmo como pelo cristianismo em seu horizonte de maior abertura. Trata-se, portanto, de recuperar o passo espiritual dos jesuanos, ou seja, daqueles que foram expulsos seja do hebraísmo ou do cristianismo, daqueles que seguiam o Jesus liberto das restrições da Torah ou que “refutavam a mitologia introduzida por Pedro e Paulo” (332). Mancuso celebra a riqueza presente no testemunho oferecido pelas luminosa figuras espirituais que viveram em coerência com a mensagem evangélica, ainda que professando ideias diversas no plano doutrinal (582).


Na visão de Mancuso a grande tarefa teológica que se abre no presente é manter acesa a atenção e a disposição teórico-prática para repensar a dinâmica da fé. Não se trata, diz ele, de cancelar a construção paulina e simplesmente retornar ao hebraísmo vivido por Jesus. Mas de avançar pelas frestas e aberturas possibilitadas pela universalidade paulina e sua dinâmica operativa marcada pela centralidade do amor agápico. Isso é o que Mancuso define como neocristianismo. Jesus vem dinamizado pelo Cristo na medida em que “suscita, potencia e endereça a liberdade para o bem” (720); na medida em que consegue ativar em nós algo de diferencial.


O projeto de Mancuso não visa separar definitivamente o Jesus do Cristo, abafando ou rompendo com a rica simbiose que preside essa relação. Trata-se, porém, de desconstruir os passos impróprios que moldaram a dinâmica histórica do cristianismo em favor da reconstrução de novas bases espirituais para o exercício autêntico da espiritualidade jesuânica e cristã (707-708). O que para Mancuso revela-se insustentável é a continuidade do cristianismo institucional assim como está. O que se revela inverossímel é a manutenção de uma soteriologia que não tem plausibilidade para a consciência atual (708). O que emerge no novo caminho proposto é uma percepção singular da salvação, para além da concepção vigente de redenção, que envolve e reconhece o valor sagrado da ação humana, em cooperação com a graça, desvelando um rosto bonito de Jesus, como alguém que suscita e anima a vida espiritual (711). O que Deus quer de nós, e o que aprendemos com Jesus, é o que o profeta Miquéias sublinhou com grande acerto: “praticar o direito, gostar do amor e caminhar humildemente com o teu Deus” (Mq 6,8).




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